Bloqueios para alívio das dores na coluna

Quando as dores na coluna se tornam persistentes, algumas modalidades terapêuticas devem ser consideradas, começando pela atividade física e fisioterapia, passando por medicações, infiltrações e, em último caso, cirurgia. Vamos conhecer mais um pouco sobre os bloqueios ou infiltrações, que são alternativas de tratamento das dores relacionadas a coluna que podem evitar um procedimento cirúrgico.

Essas infiltrações geralmente consistem em uma solução ou mistura de anestésicos locais, associados ou não a um corticoide, aplicados por diferentes vias a depender da estrutura que se deseje anestesiar. O paciente precisa ter em mente que, embora tais doses ajudem algumas pessoas, nem todas perceberão o mesmo alívio.

O que estas medicações tratam?

Nas dores crônicas da coluna e nervos, algumas estruturas podem ser culpadas pela origem da dor. É comum ouvirmos no consultório: “doutor, tenho 3 hérnias de disco!”… A questão é que todos nós teremos desgaste da coluna, e talvez até as famosas hérnias de disco apareçam em um exame de imagem que façamos por outros motivos, acontece que as alterações de desgaste da coluna são extremamente frequentes na população a partir dos 30 anos, sem que isso signifique doença ou esteja causando dor. Vou te contar um segredo…  se a pessoa tem 50 anos e não tem alterações de desgaste no exame de imagem da coluna, algo está errado!

Por essas alterações serem tão frequentes, apenas o exame clínico e os exames de imagem na maioria das vezes não serão suficientes para definir com segurança a origem da dor. As infiltrações então passam a ter um papel de teste terapêutico, porque quando promovem alívio dos sintomas podem então revelar a estrutura mais provável de estar sendo a causadora da dor.

Uma das estruturas que está mais frequentemente associada a dor crônica é de fato o disco intervertebral, principalmente lombar, já que costuma receber a maior carga e sofrer as alterações mais precocemente. Não se sabe o motivo, mas algumas pessoas têm esse processo de desgaste natural do disco doloroso e/ou acelerado, levando à chamada dor discogênica, uma dor que se localiza predominantemente na região lombar, sem muita irradiação para membros, que classicamente é pior pela manhã, e piora com a flexão do tronco. É mais comum justamente na população mais jovem que se encontra no início do processo degenerativo da coluna. Esse tipo de dor pode responder bem aos bloqueios epidurais e suas diversas variações técnicas disponíveis atualmente.

A discografia é um procedimento diagnóstico minimamente invasivo que pode ser utilizado na investigação de lombalgias complexas, que consiste na injeção de uma substância sob pressão controlada no disco suspeito onde se tentar reproduzir o padrão de dor normalmente sentido pelo paciente, além de documentar as alterações da arquitetura do disco evidenciadas pelo extravasamento anômalo do contraste observado no raio-x ou tomografia. Este procedimento vem sendo cada vez menos realizado isoladamente, porém uma outra modalidade terapêutica que vem se mostrando promissora e utiliza a discografia como ponto de partida é a terapia biológica intradiscal, que consiste na infusão de substâncias ricas em fatores biológicos, supostamente capazes de “regenerar” ou frear o processo de degeneração discal, com expectativa de melhora da dor a médio e longo prazo.

Outra estrutura que frequentemente está envolvida nas dores relacionadas a coluna são as raízes ou nervos espinhais. Estes podem sofrer por um processo inflamatório originado de uma fissura na parede de um disco adjacente, ou serem comprimidos pelas hérnias de disco ou “bicos-de-papagaio” que causam estenose ou estreitamento canal vertebral – local da vértebra por onde passa a medula e nervos – ou estreitamento dos forames intervertebrais, que são os túneis por onde saem os nervos da coluna. Quando as raízes estão em sofrimento podemos ter um quadro de dor irradiada para os membros que é chamado de radiculopatia. A famosa ciática, por exemplo, é um tipo de radiculopatia que acomete mais frequentemente as raízes de L5 (5º segmento lombar) e S1 (1º segmento sacral) que leva à dor referida como queimação, choque, facada e outras sensações desagradáveis, que irradia pela face posterior e lateral da coxa e perna, frequentemente indo até o pé. Os bloqueios epidurais e suas diferentes variações técnicas podem também ser usados nesta situação para obter alívio dos sintomas.

As facetas articulares, localizadas na parte de trás das vértebras cervicais e lombares, também são frequentemente culpadas em casos de dor crônica relacionada a coluna, causando a chamada dor facetária. Esta dor é causada pelo processo de artrose ou desgaste dessas pequenas articulações, e acomete principalmente pessoas da faixa etária a partir dos 40 anos. Quando existe a suspeita de que a dor possa ser originada das articulações facetárias, podemos utilizar o bloqueio facetário para nos auxiliar nos diagnóstico e tratamento da patologia.

Por último, uma estrutura que pode frequentemente ser negligenciada na investigação da origem da dor lombar crônica são as articulações sacroilíacas. Elas se situam de cada lado da bacia e ficam entre o osso sacro – que forma a base da coluna – e os ossos ilíacos, que formam o quadril. É uma articulação com mobilidade reduzida e quando está inflamada pode cursar com dor de origem sacroilíaca, que pode confundir com os outros tipos de dor crônica da coluna, inclusive com irradiação para nádegas, parte posterior da coxa e região inguinal. Diante da suspeita de dor sacroilíaca, um bloqueio da articulação sacroilíaca ou dos seus ramos sensitivos pode ser tentado para auxiliar no diagnóstico e tratamento da dor lombar crônica.

Os efeitos dos bloqueios geralmente são transitórios, mas podem ser suficientes para interromper uma cascata inflamatória e melhorar o aproveitamento da fisioterapia e atividade geral, podendo também levar a uma melhora de longo prazo. Por isso o ideal é que sejam seguidos por um reforço no programa de fisioterapia e orientação de manutenção de níveis saudáveis de atividade física. Os bloqueios podem ser repetidos a depender do julgamento do médico assistente. Se mesmo assim houver falha na resposta, procedimentos mais invasivos podem ser propostos com o intuito de melhorar a qualidade de vida do paciente.